Ontem enquanto estava no café lia numa revista que sai com o Público ou o Jornal de Noticias, um artigo sobre o novo Acordo Ortográfico, e falem-me num atentado ao português…

Este novo acordo, que de novo não tem nada, na verdade já está pra ser implementado desde 1994 mas tem sido atrasado até agora, tem por objectivo unificar as duas ortografias portuguesas, o Português Europeu e o Português Brasileiro, num só Português usado em todos os países, sejam estes Portugal, o Brasil ou qualquer um dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa). Mas até que ponto esta unificação é real?

A principal razão para este acordo é a de que internacionalmente a língua será tanto mais importante quanto maior o seu peso unificado. Trocando por miúdos, nas relações internacionais existem 4 grandes línguas, o Inglês, o Francês, o Português e o Espanhol, sendo o Português a única que admite duas grafias. Esta duplicidade limita a dinâmica do idioma criando obstáculos em todos e quaisquer planos em que a língua escrita for utilizada (jornais, revistas, televisão e claro, a Internet). Assim a dupla grafia limita a partilha de conteúdos e a afirmação da língua internacionalmente.

Este acordo introduz alterações de 1.6% no português e 0.5% no brasileiro. Embora possa parecer percentualmente insignificante, na prática as alterações são bem visíveis. As alterações são mais drásticas no Português Europeu, tornando-o mais abrasileirado, nada contra o Português do Brasil, a questão é que este é razoavelmente diferente do que estamos habituados, e as alterações ao Português do Brasil não são tão visíveis, andando mais à volta das acentuações. Acredito que isto seja devido ao elevado número de Brasileiros no mundo, estatisticamente é mais simples por-nos a nós a escrever como eles do que ao contrário.

As alterações incluem a inclusão de mais 3 letras no alfabeto (k, w e y), passando de 23 a 26. Mas sem dúvida a mais notória é a remoção às palavras das consoantes mudas, H em húmido (úmido), B em baptismo (batismo). Salvam-se algumas excepções, casos como facto (fato), e outras pontuais. Acredita-se também que estas alterações irão gradualmente levar a alterações na fonética das palavras, ou seja no fundo não é só o português escrito.

Incluem-se também nas alterações, questões com acentos e deixam também de existir hifens a separar palavras (algo semelhante ao alemão), para-quedas (paraquedas).

É importante não esquecer que tanto fonética como gramaticalmente o Português Europeu e o Português do Brasil são bastante diferentes, estes obstáculos vão continuar a existir. No fim de contas persiste a questão: Até que ponto esta unificação é real?

 

5 Respostas a “Querem comer-nos as letras”
  1. Bene diz:

    Bonito vai ser com as pobres das criancinhas que aprenderam agora a escrever e agora têm que re-aprender (ou será reaprender?? :P ) tudo outra vez…

  2. Sobre o “aborto” ortográfico « perspectivas diz:

    […] Querem comer-nos as letras […]

  3. fábula diz:

    espectador passa a espetador, certo? então como se distinguirá espetador (aquele que assiste a um espectáculo) de espetador (aquele ou aquilo que espeta)? acto passará a ato: eu ato os sapatos; é o terceiro ato. brrrrrr! :(

  4. fábula diz:

    também me parece que essa tal apregoada unificação da língua é completamente demagógica. este acordo ortográfico, mais do que um acordo linguístico é uma acordo político e económico, em que quem fica a ganhar é o Brasil…

  5. Joao Santos diz:

    a língua deve adaptar-se, modificar-se, evoluir. Sendo nós portugueses um povo aberto ao mundo, deve a nossa língua manter-se estática, parada, e não sofrer influências de outros? Vejo o acordo como uma evolução normal da língua incorporando outras possibilidades em termos de grafia, e um passo contra a fragmentação da língua portuguesa em várias línguas baseadas no português.

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